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Poesias

"Versos que dançam com o vento e pousam na alma"

Índice de Poesias

Clique em um título para mergulhar nos versos. Cada poema é uma porta aberta para emoções universais.

Tanto a-mar

Romance

É tanto amor que tenho que começo a desmanchar… Assim como uma massa de modelar na mão de uma criança. Esse amor, de tão forte, anseia por sair do corpo correndo, como um atleta apressado, mas não corre, fica! E fica aqui, contido, balançando para frente e para trás… É justamente isso que faz mover o coração que nada mais é do que o amor batendo, querendo sair do corpo e não podendo. Bate na porta do corpo e este, trancado, se fecha. Mas é tanto amor querendo sair que ele então encontra uma brecha, duas janelas nesse mundo tão fechado. E o amor vai saindo em forma lacrimal descendo até chegar na boca e ao entrar nela provoca o gosto salgado. Isso aguça ainda mais a certeza… Sim, eu devo ter vindo do mar, salgado, forte e leve. Vai e fica ele também… e às vezes somos um só num só movimento… Feitos de águas e ventos a se misturar. Ao longe o vejo bater no peito do mundo e logo penso: O mar também deve amar e, por tanto amor que tem, difícil seria manter-se em paz e, indo e vindo acaba se tornando forte demais. Inunda vilas inteiras, casas costeiras e depois paira calminho… como se nada ali viesse a passar e se oferece quieto para a criança fincar seu baldinho na areia e molhar somente a ponta dos pés. É tanto amor que tenho que… falta o ar, sobra o mar e me faz a-mar.

Recordar não é viver

Reflexão

Talvez o papel mais interessante da memória Seja nos transmitir a impressão que a vida exista Quando na verdade, ela apenas se manifesta Essa cômica sensação de guardar o tempo, os sabores, os amores e os dissabores É a pura vaidade da memória. Senhora caduca, casada com o passado, amante do futuro Tem por sonho: ser real. E a vida segue a cair de amores por quem se manifesta… Não apenas nas memórias, mas na ação Pois sendo ela Pura manifestação Não tem do que esquecer, nem lembrar. Segue se manifestando Criando e apagando. E os seres vão se angustiando Com tanta vida a se manifestar Julgam prudente então: captar, reter, fotografar …De memórias se preencher E se dentro das memórias quase nenhuma vida restou É por que memórias são resquícios de uma vida Que já se manifestou. Recordar não é viver Memória ou vida, os dois juntos jamais. Enquanto a vida acontece A memória vai juntando os seus pedaços pelo chão Remendando as emoções Que a vida como um confete festivo Espalha… Como há alegria! Guardada e parada Esperando ser libertada Pedindo para quem tem vida Manifestar!

Fome

Intenso

A fome arrasta uma carroça e passa vagarosa pela avenida movimentada Seja paulista, sulista, carioca ou candanga. Calçada em trapos, metade pé, metade sujeira. Seu corpo é repuxado, esquelético. As hastes metálicas chegam a se confundir com as mãos que carregam latas de coca-cola vazias, bebidas por quem não tem fome. A fome tem poderes mágicos, quando bate nos corpos os tornam invisíveis. Insensíveis são os olhos de quem não tem fome Ao lado das lojas abertas, pessoas vazias de barriga cheia. Comentando o jornal local Lamentando a violência banal Enquanto comem… A fome junta moedas pra comprar um pão, mas pelo pouco que juntou recebe um: não! E o frio traz fome. Mas pra quem já tem fome o frio traz medo. Agora o pão já não é o bastante e o corpo quer ir além da nutrição Saciar a solidão Disfarçar a saudade Fantasiar que faz parte da sociedade Deixar de ser invisível Permitir que qualquer coisa entre na veia Fumaceie os pulmões. Depois de satisfeita a fome esquece a si própria. Agora não está desacompanhada É facilmente notada Mobiliza o aparato policial Dá pauta para a matéria do jornal. Agora é ela quem alimenta o medo. Na mesma avenida lotada A fome tão cheia de si Quer dividir o que tem Quer ser notada É violenta É violentada E acaba por ser culpabilizada pela própria fome que tem.

A corrida para a vida

Contemplação

E quantas vezes, chegando ao fundo do poço, Cavaste um bucado mais? Remontando seus cacos de dignidade já com braços cheios da mísera honra que te sobrou? E mesmo assim, cavando tão fundo, recorrias tu ao mesmo poço uma vez mais, tal como um visitante incessante do seu próprio ritual. Tentas respirar o ar puro, mas já é a narina que lhe falta ao olfato das coisas sutis. Tentas ser feliz, mas a sonora palavra tão repetidamente dita não passa de um jargão. Acendes as luzes do porão em que se encontra sua mente e lá estás tu, cansado, dormente, entregue ao senhor vão, que nomeaste assim mesmo sabendo que em verdade o que te acompanha é pura solidão. Olhas para o céu e tens medo ainda que o dia surja cedo, e que noite demore a se anunciar. Rezas aos Deuses pedindo ao mundo que pare e gire ao contrário, quem sabe assim sua vida mude o itinerário. E da amargura de coisas tão espessas paire um paz singela e derradeira a atravessar seu corpo qual luz a penetrar no barro cinzento cintilando o que havia de mais opulento. Pensas num colo, numa mão a te guiar Pensas em ser mãe para gerar a quem amar de tabela logo és barrado pela biologia que te fez homem, te fez varão, terás tu que lidar com a dor do coração sem jorrares por fora, sem demonstrares um só lamento. Serás tu seco por dentro e, ainda assim, terás que te levantar. Com as pernas que tens, porás em movimento uma após outra, como numa sinfonia de gente louca, pondo-te a correr como um animal cheio de medo. Pensas com sabedoria, que nem mesmo o pior dos dias é capaz de parar aquele que se pôs em movimento. Ouves portanto, o velho poço a te chamar, carregando resquícios de tua alma lamacenta que vai se esvaindo enquanto corres. Teus passos são tão rápidos, teu mover tão tenaz que de repente tornas a sentir os cheiros do mundo. Teus cabelos, agora esvoaçantes, brincam com a relva em igual movimento. Começas a sentir que por dentro teu peito cintila e o sangue, ávido por circular as veias, acelera sua pulsação e aquele oco antes tão vazio ouve rufar um coração. Entendeste por final, o mistério das coisas paradas a viver estagnadas, cada qual com sua própria nominação. Uns a chamam medo, outros solidão. No final, eras tu somente uma alma dolorida que foi chamada à corrida e decidiu por ficar. Sabendo agora das rodas do mundo, vibras nas ondas mais belas e te demoras somente em amar!

A flor e a infância

Filosófico

Eu sei Você fez birra por quase todos os cantos Quebrou sua paz Rangeu dentes alheios enquanto apertava os seus Escondeu os gestos Fez protesto contra tudo que vinculasse ela a você Não aceitava ser chamada de flor Coisa esta, infantil, banal Por um tempo foi eficaz Enquanto tudo era caule e promessa de botão Ainda assim ela forçava Ensinando o que você queria desaprender Sei bem… Você queria ter apenas um Eu Inteiramente seu E por isso gritou tanto Até que conseguiu Deixou seu jardim Partiu De repente, era a mais bela entre as mulheres Sem em nada parecer com o jardim que te gerou Isso era o que pensava, você Agora dona do seu eu Esbelta, elegante Triunfante nas agendas sociais Radiante? Sim, cada vez mais Tão cheia de pétalas Tão cheia E tão cheia Que murchou… Não sustentou o próprio peso A alma carregada O perfume inebriante a sufocou A beleza desejada mandou cobrança Desfez contigo as alianças Você então Rogou Pediu aos céus Os perfumes dos outros tempos Em vão O caule deixou sua face envergada Nada mais era tão urgente O vento se pronunciou As pétalas se foram junto com ele Aquela que fugiu de seu jardim Voltou Lá se deparou com suas raízes Entrelaçadas Lá também estava ela Sob calma chuva fina Tímida, acanhada Esperando paciente A flor desgarrada Recebeu você com um sorriso Que te fez resplandecer Entender-se por dentro Você abriu novamente um botão Agora mais ameno Mais discreto Foi preciso multiplicar-se Tamanha alegria que não se cabia numa só E por você nasceram milhares Estava ela a te esperar: Sua infância descartada Sua mais bela raiz Seu mais lindo botão Não era preciso mais lutar Nem dela se avergonhar Tudo o que fora bobo e infantil A flor agora precisava A flor madura Experiente Se fez contente Quando foi chamada de flor Novamente

O tempo

Esperança

O tempo levou as ilusões Transformou minha cidade Mudou minha idade Descoloriu-me os cabelos Mudou minha opinião O tempo fez estrelas caírem Apagou minha memória Levou alguns parentes Gerou novas crianças Desgastou amores perfeitos Fez a seca no rio Trouxe novas estações Novos amigos Matou nossa vaidade O tempo fez piada com as certezas Mudou tudo aquilo Que em outro tempo se acreditava Corroeu nossos segredos Aumentou nossos medos Escapou entre os dedos O tempo me cedeu uma fração Um de seus vários pedaços Que tentei esticar Que tentei conservar Que tentei guardar Que tentei rememorar Ainda assim o tempo veio cobrar O pouco tempo que me deu E como o tempo nunca foi meu Tive eu que aceitar Ficar sem tempo e sem lugar No nosso último adeus Esperava ficar triste Mas foi no final do meu tempo Que percebi Que o tempo sequer existe. www.levedeler.com.br Carlos Alberto Jr

Inconsciência Humana

Poesia livre

Imagino que ao crescer vamos enfim aprender Agora que somos mais velhos Esticados E somente isso Falta algo a mais para crescer Tão grande somos e ainda balbuciamos que injustiças são puro: Mi mi mi Crescer para ouvir os ecos dos gritos Por detrás das selfs coloridas que tiramos Quando estamos no Pelourinho. Lá se tinha consciência humana Seletiva e esbranquiçada Talvez quando crescermos como nação Não veremos as vidas como borrões de tinta apagada E tampouco acreditaremos que histórias clamam por ser vitimizadas Há 70 anos atrás pessoas se reuniam em centros populares da Europa Indo para Paris, Londres, Bruxelas Tal como fazemos agora para desestressar e ter uma bela experiência emocional Naquela época colocavam negros em praça pública Dentro de um cercadinho para exibir uma experiência animal Se perguntados, diriam por certo que tinham: Consciência humana e não racial Se isso lhe soar racismo ao contrário ou falta de consciência tal Digo apenas que é um relato Você terá a opção de pesquisar no Google Mas não aconselho a você Aconselho algo a mais Passe a vista nos jornais Ou fora da sua confortável residência mental Comece hoje mesmo Ao estacionar Passe o olho na cor do Flanelinha E imediatamente olhe para a cor do condutor Do carrão ao lado Ao ir para seu encontro com as amigas e amigos No agradável local de sua escolha Olhe mais uma vez: A cor do atendente A cor do freguês A cor do limpo chão branco Areado em sua maioria pela mão negra Não quero estragar seu dia Mas tenha a ousadia de verificar os números Caso você seja racional e ame as estatísticas Passe o olho de forma sutil E vai ver que de 100 pessoas assassinadas 73 são negras neste Brasil Seriam muitas estatísticas para explanar Mas meu intuito é que você vá pesquisar E não pare de olhar. Se for curioso vai descobrir: A cor da prisão A cor do Judiciário A cor da periferia Entendo se tudo isso lhe der dor de cabeça… Você poderá dispor de um médico para lhe atender Mas não poderá esticar muito a conversa sobre suas novas percepções raciais Pois ele certamente será branco e falará que isso não é nada demais Se você tem mesmo essa empatia te digo que pode se juntar Pois tudo diz respeito ao Branco ao Amarelo, ao Negro. Não se esqueça que se seu aniversário for no dia do Natal, finados, feriado nacional, ou dia da Paz Universal Ainda assim você lutará por ele, pois ali está um pedaço da sua história E você vai querer ser lembrado! Entendo seu infantil desejo sobre essa tal consciência Eu também o tenho. Vejo que somos pura igualdade na biologia Na capacidade, na humanidade e na falta dela Só não na realidade social, na vitrine, na novela, na Universidade, no jornal… Mas unidade é conquista e não pura palavra O momento é de falar De expor no verso, na rua, na cara nas leis Há um negro no Brasil a despertar Desejoso de se mostrar De falar com orgulho do seu dia De soltar os cabelos As amarras Levantar a cabeça e manter a coluna ereta E isso é puro encanto Nos deixem reverenciar todos os lindos dias Mas especialmente este Pois ali e quando se traz à tona a memória e a história E se convida a consciência para ser: Negra

Saber não Ser

Introspecção

Quase tão importante quanto ser aquilo que te define É saber não ser Não ser aquilo para o qual você se diplomou Não ser o trabalho que você arranjou Não ser o sonho que você realizou e nele se prendeu Não ser é liberdade! É poder entrar e sair de mundos É tirar a capa, o jaleco, a toga, o uniforme a cara amarrada ou a face feliz que você conservou, enrijeceu, perpetrou Todos te conhecem pelo rótulo que voce construiu que alguém te ensinou que você conservou No entanto, paira a dúvida se isso ainda é seu Parece que todo dia ao se levantar você faz um esforço para conservar boa parte daquilo que você já não é Aquilo que já se foi que está gravado empedrado talhado no passado Não ser, abra portas para o diferente te põe em conexão com gente que você normalmente afastaria Não ser, muda teu paladar te convida a experimentar o jiló amargo do passado e que você jamais 're-comeria' Não ser, é um convite para transitar e voltar pra si mesmo, mais amplo e cada vez menos completo Não ser, te enche de mundo te enche de tudo e de nada Não ser, é uma barca furada Onde não se afunda Não ser, divide a calma, a dor e a alegria Que sendo, você também sentiria Mas preso na ilusão de que aquilo vem exclusivamente de você.

Morri do Coração

Força

Morri do coração, A vida realmente transborda coerência Ao menos nessa minha morte Ao menos nesse meu caso Coração sobrecarregado Sentidor de tudo Portador do mundo Além de bater, coordenar, distribuir As montanhas de sangue Teve ele que sentir, consentir Foi ele emprestado Amado, deixado, remendado Morreu de exaustão Como um burro de carga Portou o que não era seu Rifou como um tambor Procurou a calma A meditação Procurou oração Achou adrenalina Ansiedade Cansou de tanto querer Quando quis voltar a origem Quando quis voltar somente a bater Bateu rotineiro Desavisado Provocando a própria arritmia Por isso ao poucos Foi morrendo de si mesmo Sem nenhum cuidado Morreu do coração O coração assoberbado De um ser intenso A vocês do coração igualmente tenso Trago o aviso Asserene o passo Cultive o riso Danse com as palavras Flexione o tendão De ao corpo o que for preciso E não viva só de coração.

Vapor

Jornada

Era vapor Que impulsionava a terra que tremia as veias Que rancava o couro Era vapor Corrida de touro Eu e você Nosso jeito sentimental Vivendo a quentura do mundo Animal Sentindo por dentro A ebulição do momento Os pés na serra Queimando os caminhos Derretendo as bocas Era vapor enquanto habitava o corpo Se tornou chuva Pra outra planta crescer De onde viemos O que viemos a ser Veio desse caos ardente Estanho admitir para mentes inocentes Que toda a vida teve inicio em uma bola incandecente Um inferno particular Um forno sem limites Os caprichos do tempo Viram o solo arder Mergulhar Envelhecer Recentemente vieram os animais Guardando traços ancestrais De um calor Que já não existe mais. www.levedeler.com.br Carlos Alberto Jr

Sobrenatural

Melancolia

Venho dar-lhes a boa nova, última Vos apresentando o amálgama que cultivei Perpassei os vários mundos Transitei entre florestas Fui ao éter celestial Ascendi às consciências Pendulando com tempo Provei as teorias Refutei livros sagrados Deixei o eu se perder Até não mais estar aqui quem vos fala Ainda assim Trago-vos a atestação real A cabal constatação Do procurado sobrenatural Aquilo que não sois vós Mas ultrapassas o real O sobrenatural Acima de tudo De tão perfeito Escondeu-se definitivamente Ao alcance dos vossos olhos Debaixo de vossas narinas Nos sentidos dos teu corpo Na entranhas do teu paladar Escondeu-se de ti Quando vos perdestes a beleza de olhar Chamando à tudo Normal Foi por ali que o sobrenatural Deixou de se aperceber De ser percebido Naturalmente foi recolhido e perdeu o esplendor Assim o rio virou trajeto A natureza objeto Os seres Triviais O sobrenatural portanto Continua aberto Para o olhar desperto Para os conflitantes do normal Sobrenaturalmente foi se o dia Em uma rede de conexões que Transforma o que o toca No sobrenatural

Pequena luz

Esperança

Uma pequena luz no fim do túnel
É tudo que preciso pra seguir
Não precisa ser grande ou visível
Só o bastante para existir

O mar e eu

Contemplação

O mar me ensina a paciência
Cada onda que vem e vai
Eu aprendo a resistência
E que a calma sempre cai

Estrela guia

No céu escuro da incerteza
Uma estrela me guia
Não precisa ser beleza
Só a esperança que irradia

Amanhecer

Recomeço

A cada amanhecer uma chance
De ser melhor que ontem
A vida é uma dança
E o palco é o presente

Minha sombra

Introspecção

Minha sombra me acompanha
Nos dias de sol e de chuva
E me lembra que sou humana